quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Fãs do Futebol internacional

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SEM HERÓIS POR PERTO

Veículo: O Globo
Seção: O Globo Digital
Autor: André Freitas
Data: 20/05/2007

Um jovem carioca relaciona seus ídolos no futebol. E na lista estão: o marfinense Didier Drogba, do Chelsea, da Inglaterra; o português Cristiano Ronaldo, do também inglês Manchester United; e o brasileiro Ronaldinho Gaúcho, que joga na Espanha, pelo Barcelona. Apesar de, para a atual realidade do futebol, a listagem não poder ser chamada de inusitada, ela denuncia uma tendência e impele uma pergunta: onde estão os atletas que jogam no Brasil nessa preferência? Pelo visto, fora dela.

Cada vez mais, os jovens torcedores migram suas atenções para fora das fronteiras dos campos nacionais.

O melhor futebol do mundo — o brasileiro — continua atraindo, menos quando jogado deste lado do Oceano Atlântico. Para o autor da lista acima, o estudante Vinícius Rechtman, de 19 anos, a explicação para o crescente interesse pelo futebol europeu é simples.

— É logico que há bons jogadores aqui, mas eles vão embora cedo. É bom para eles, mas ruim para os torcedores — lamentou ele, que no Brasil torce para o Fluminense, mas disse ter também simpatia pelo Barcelona.

Na disputa de camisas, os europeus vencem na coleção de Vinícius. Dos clubes do Brasil, só a do Fluminense marca presença e se soma a de Real Madrid, Barcelona e PSV.

Um estudo sobre a influência dos jogadores de futebol no consumo dos adolescentes, elaborado pela pesquisadora Flávia Szuster, da CoppeadUFRJ, esclarece uma das lacunas da identificação entre torcedores e jogadores.

Para ela, o marketing em torno dos grandes times e jogadores da Europa é determinante.

— É comum os meninos serem fiéis aos craques. Eles querem ídolos e buscam lá fora. As marcas sabem disso e trabalham muito na imagem dos jogadores, tendo os mais jovens, que são consumidores futuros, como alvo. É mais eficiente do que investir na imagem dos clubes — explicou a pesquisadora.

A isca de todo esse investimento é global e fisga principalmente os mais novos. O rubro-negro Nicolas Frajhof, de 14 anos, confirma a tendência atual: — Acompanho a Liga dos Campeões, a Copa da UEFA e o Campeonato Inglês.

Aqui, fico mais com os do Flamengo.

‘Se digito Ronaldinho na internet, aparece um monte de gols bonitos. Se boto Alex Dias, não vem nada’ VINÍCIUS RECHTMAN Tricolor, e simpático ao Barcelona.

Distância entre ídolos (na Europa) e jovens (brasileiros) é reduzida por consumo

Se os torcedores carecem da proximidade com os ídolos, a indústria da propaganda não perde tempo e trata de encurtar essa distância. A pesquisadora Flávia Szuster explica que o investimento das marcas na imagem dos jogadores é intenso na Europa: — No Brasil, os atletas mudam muito de clube ou vão embora. Na Europa, é impressionante como conseguem associar tudo com o futebol.

Inusitados exemplos disso foram trazidos de uma viagem da pesquisadora à Europa: dois livros escolares de Portugal, cujas capas estampam o português Simão Sabrosa, jogador do Benfica, e o brasileiro Liédson, ídolo do Sporting. Detalhe: os livros não são de educação física, mas de matemática.

Os portugueses usam os craques do futebol até para ensinar os primeiros cálculos a suas crianças.

Saída de craques inibe torcida por times nacionais Enquanto os adolescentes brasileiros não têm em suas mesas escolares livros com Kaká, Ronaldinho e Robinho, eles mergulham no consumo do futebol estrangeiro em cada detalhe. Uma chuteira, que há nem tantos anos assim era substituída facilmente nos pés dos garotos por um Kichute, hoje precisa estar associada a um craque internacional.

— Na loja em que fui comprar minha chuteira, havia a do Ronaldinho Gaúcho, a do Wayne Rooney e a do Cristiano Ronaldo.

Comprei a do Cristiano Ronaldo porque meu estilo de jogar tem mais a ver com o dele — contou o adolescente Nicolas Frajhof, torcedor do Flamengo no Brasil; e do Manchester United na Europa, mas antes admirador do Milan, por causa do brasileiro Kaká. — Meu sonho é ir a uma final da Liga dos Campeões. É lá que estão os craques, onde está o dinheiro.

Na pesquisa, que se transformou em dissertação de mestrado, Flávia Szuster percebeu que os adolescentes compreendem que, apesar de o futebol brasileiro ser o melhor do mundo, o futebol no Brasil não é: — Essa compreensão pode explicar o porquê deles valorizarem mais os ídolos de fora.

Um fato interessante é que eles usam a camisa dos times brasileiros para irem aos estádios e a dos internacionais para sair, porque dá mais status.

Flávia ressalta ainda que essa geração de torcedores encontra um acesso facilitado ao futebol estrangeiro: — Hoje, os jogos passam até na TV aberta e as campanhas publicitárias são globalizadas.

A mesma de lá passa aqui.

A instabilidade no futebol nacional é citada entre os motivos para a redução da identificação com os clubes do Brasil.

— Aqui, é difícil comprar uma camisa. Os jogadores mudam muito, e os números não são fixos. Qualquer uma lá de fora que tiver o nome do Ronaldinho (Gaúcho), eu compro — revelou Nicolas, fã do craque do Barcelona.

Para o tricolor Daniel Rechtman, de 19 anos, a transferência dos craques leva junto o interesse: — Brasil e Argentina têm o melhor futebol, mas os campeonatos foram esvaziados por falta de dinheiro. Isso tira a vontade de acompanhar.

Outro imã para a Europa tem sido os jogos de videogame.

Fifa Soccer, Winning Eleven e Championship Manager são títulos que os pais estranham, mas que "viciam" os filhos.

— Jogo com o meu irmão pelo menos duas partidinhas (de Winning Eleven) toda noite antes de dormir — conta o vascaíno Gabriel Casotti, de 14 anos, torcedor também do Milan. — O videogame me influenciou a gostar dos clubes de fora. Ultimamente, tenho acompanhado mais o Milan que o Vasco.

Flávia Szuster diz que a transição de preferência se dá de forma muito clara.

— Eles não sonham ver o time deles numa final de Mundial em Tóquio, como a geração passada, mas assistir aos ídolos dos clubes europeus de perto — explicou.

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